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Ilustração; Ben Heine |
POEMA DO AVESSO
O que há em mim
é a lenta preparação
do que há em ti
sombra segada
sangrada
e sagrada
até nos olhos
dos meninos que nasceram
sem olhos
vidência única
(vide o verso)
visão múltipla
(vede o anverso)
e tudo que está do outro lado
do espelho.
TRANSFIGURAÇÃO
Mudas, no papel,
as palavras pronunciadas
voam
que nem passarinhos.
Será que elas criam ninhos
... nos teus ouvidos?
BAGAGEM
Na mochila
ou na valise
a fluidez
das fronteiras
é uma ordem
Desobedeça.
MUTAÇÃO
O sol é o mesmo
A água é a mesma
--Eu é que sou a lesma!
ESQUECIMENTO
Esqueci um poema dentro do mar
Ele nasceu das águas, das algas,
dos silêncios e dos murmúrios
de tanto amar. Levou-o os ventos
alísios, as brisas marinhas, as massas
de ar. E agora, dentro de uma concha
quase perdida na areia da praia,
o poema esquecido quer ser ouvido.
Mas o silêncio encobre a voz da palavra
ARTIMANHA
a arte é
manha
de vir
a arte é
manha
de ver
arti-
manha:
viver
ANIVERSÁRIO
Teu aniversário, no claro
se comemora.
Desculpa de levar-te este poema.
Os poemas são inúteis.
Como uma flor.
Uma abelha.
Ou um ninho de passarinho.
E para ser bem franco,
eu quero mesmo te dar uma coisa inútil.
Afinal, aos oitenta e três anos
o que pode um pai esperar
de um filho:
que o filho tenha alguma utilidade ?
Não meu pai. Eu sei que as coisas
mais importantes para o senhor
estão muito além dessas molduras
que podem enfeitar
paredes
e decorar salas.
Por isso eu fiz questão
de te escrever um poema.
Afinal, o que a gente pode fazer com um poema.
Ou com uma tarde ao entardecer.
(Parece pleonasmo, repetição.
Mas não é. É assim mesmo:
uma tarde ao entardecer.)
E me desculpem os gramáticos,
os dicionaristas.
O que eu quero dizer é exatamente isso:
uma tarde ao entardecer.
Eu quero expressar de fato
e sinceramente essas nuances
que nunca se repetem.
Ou se repetem.
Mas sempre de uma maneira nova.
Única. Singular.
Seja no céu. Na boca. No céu da boca.
Na palavra impronunciável.
Ou no silêncio
que guarda mistérios de cofre
e segredos de porão.
Nunca te pedi a mão
tão pouco enrugada
e macia
para beijar-lhe as veias
-- hoje grossas.
Nem procurei nos olhos gateados
aquelas certezas do teu viver.
Em verdade, as tuas certezas
nada mais foram que a permanência
de tuas dúvidas infantis.
Teu jeito tão próprio
de viver e conviver
não fizeram de você um homem cansado
ou desapontado.
Tua mobilidade é perfeita.
E tua fé resiste a tudo.
Não há gritos --presos ou soltos-- em teu lábio.
Acho que você foi,
desde menino,
aquela brutalidade de encantamento
que habita
o princípio de tudo.
Barro inicial,
argamassa de sonho,
síntese
nunca domesticada.
Talvez Riobaldo.
Talvez Diadorim.
O certo mesmo é que teu coração mistura amores.
Tudo cabe.
Desde a varanda de ver nuvens
até a sorte momentânea.
Mas é pelo tudo contra
--tua aposta mais exaltada--
é que se percebe
que nunca houve regra
de nenhum meio termo.
O senhor sabia que coração
cresce mesmo
é de todo lado.
Polígono, hexágono,
triângulo.
E me passou isso,
passando o proibido:
o dito e o interdito.
Sempre achei
que o espírito é cavalo
que escolhe estrada.
Rumos do porvir. Veredas.
Estreitos caminhos de si mesmo.
Grotão de águas plurais.
Confluências. Convergências.
E a iluminar a gente
a certeza de que um rio é sempre sem antiguidade.
Igual pessoa se desmisturando da nascente,
faceando com as surpresas.
Ficando nova.
Novo pai. Novo filho.
O que fomos nesses tempos todos de teus 83 anos?
No repartir miudinho de cada dia?
No beijar escondido da tua santinha?
Na alegria veemente das praias
e do teu fascínio pelo mar,
pela montanha,
e por tudo aquilo
que se mostrava diante, defronte,
além ou aquém de você mesmo?
Recintos do perdurável.
Instantes de essência.
Pai, impregnaste todos os meus modos de ser
com teu exemplo visceral.
Inesquecíveis são as coisas,
todas as coisas,
quando penetramos nelas
com o desejo original
de revelação.
Nunca neguei ao senhor meus pés, mãos e ouvidos,
nem meus entendimentos
precipitados.
Todos nós fomos feitos
aos trancos
e barrancos.
Nos vãos. Nos desvãos.
Nos desvios.
E no encontro daquilo
--Deus selvagem--
sempre escondido
nas curvas do corpo
e nas sapiências da alma.
Eu mesmo sempre estive indo a meu esmo.
Procurando meu ermo.
Minha solidão.
Minha pedra fincada
no chão.
E meu próprio filho já me disse:
meu pai do chão,
meu pai do céu.
E isto nunca deixará de ser
sabedoria danada. Poetagem.
Meninice desancorada.
Acreditei
e ainda acredito
em dar um jeito
ao suceder.
Ao pensamento quero dar
as direções,
os contágios,
as altas febres.
E as emoções quero dar
um lugar,
seu espaço fundamental,
simples,
sem nenhum aviso.
Meu lema é viver
e deixar viver.
se comemora.
Desculpa de levar-te este poema.
Os poemas são inúteis.
Como uma flor.
Uma abelha.
Ou um ninho de passarinho.
E para ser bem franco,
eu quero mesmo te dar uma coisa inútil.
Afinal, aos oitenta e três anos
o que pode um pai esperar
de um filho:
que o filho tenha alguma utilidade ?
Não meu pai. Eu sei que as coisas
mais importantes para o senhor
estão muito além dessas molduras
que podem enfeitar
paredes
e decorar salas.
Por isso eu fiz questão
de te escrever um poema.
Afinal, o que a gente pode fazer com um poema.
Ou com uma tarde ao entardecer.
(Parece pleonasmo, repetição.
Mas não é. É assim mesmo:
uma tarde ao entardecer.)
E me desculpem os gramáticos,
os dicionaristas.
O que eu quero dizer é exatamente isso:
uma tarde ao entardecer.
Eu quero expressar de fato
e sinceramente essas nuances
que nunca se repetem.
Ou se repetem.
Mas sempre de uma maneira nova.
Única. Singular.
Seja no céu. Na boca. No céu da boca.
Na palavra impronunciável.
Ou no silêncio
que guarda mistérios de cofre
e segredos de porão.
Nunca te pedi a mão
tão pouco enrugada
e macia
para beijar-lhe as veias
-- hoje grossas.
Nem procurei nos olhos gateados
aquelas certezas do teu viver.
Em verdade, as tuas certezas
nada mais foram que a permanência
de tuas dúvidas infantis.
Teu jeito tão próprio
de viver e conviver
não fizeram de você um homem cansado
ou desapontado.
Tua mobilidade é perfeita.
E tua fé resiste a tudo.
Não há gritos --presos ou soltos-- em teu lábio.
Acho que você foi,
desde menino,
aquela brutalidade de encantamento
que habita
o princípio de tudo.
Barro inicial,
argamassa de sonho,
síntese
nunca domesticada.
Talvez Riobaldo.
Talvez Diadorim.
O certo mesmo é que teu coração mistura amores.
Tudo cabe.
Desde a varanda de ver nuvens
até a sorte momentânea.
Mas é pelo tudo contra
--tua aposta mais exaltada--
é que se percebe
que nunca houve regra
de nenhum meio termo.
O senhor sabia que coração
cresce mesmo
é de todo lado.
Polígono, hexágono,
triângulo.
E me passou isso,
passando o proibido:
o dito e o interdito.
Sempre achei
que o espírito é cavalo
que escolhe estrada.
Rumos do porvir. Veredas.
Estreitos caminhos de si mesmo.
Grotão de águas plurais.
Confluências. Convergências.
E a iluminar a gente
a certeza de que um rio é sempre sem antiguidade.
Igual pessoa se desmisturando da nascente,
faceando com as surpresas.
Ficando nova.
Novo pai. Novo filho.
O que fomos nesses tempos todos de teus 83 anos?
No repartir miudinho de cada dia?
No beijar escondido da tua santinha?
Na alegria veemente das praias
e do teu fascínio pelo mar,
pela montanha,
e por tudo aquilo
que se mostrava diante, defronte,
além ou aquém de você mesmo?
Recintos do perdurável.
Instantes de essência.
Pai, impregnaste todos os meus modos de ser
com teu exemplo visceral.
Inesquecíveis são as coisas,
todas as coisas,
quando penetramos nelas
com o desejo original
de revelação.
Nunca neguei ao senhor meus pés, mãos e ouvidos,
nem meus entendimentos
precipitados.
Todos nós fomos feitos
aos trancos
e barrancos.
Nos vãos. Nos desvãos.
Nos desvios.
E no encontro daquilo
--Deus selvagem--
sempre escondido
nas curvas do corpo
e nas sapiências da alma.
Eu mesmo sempre estive indo a meu esmo.
Procurando meu ermo.
Minha solidão.
Minha pedra fincada
no chão.
E meu próprio filho já me disse:
meu pai do chão,
meu pai do céu.
E isto nunca deixará de ser
sabedoria danada. Poetagem.
Meninice desancorada.
Acreditei
e ainda acredito
em dar um jeito
ao suceder.
Ao pensamento quero dar
as direções,
os contágios,
as altas febres.
E as emoções quero dar
um lugar,
seu espaço fundamental,
simples,
sem nenhum aviso.
Meu lema é viver
e deixar viver.
Rubens Jardim, 69 anos, jornalista e poeta. Publicou poemas nas antologias: 4 Novos Poetas na Poesia Nova (1965,SP), Antologia da Catequese Poética (1968,SP), Poesia del Brasile D'oggi (1969,Itália), Vício da Palavra (1977,SP), Fui eu (1998,SP), Poesia para Todos (2000,RJ), Antologia Poética da Geração 60 (2000,SP), Letras de Babel(2001,Uruguai), Paixão por São Paulo(2004,SP), Rayo de Esperanza (2004, Espanha), Congresso Brasileiro de Poesia (2008,RS). É autor de três livros de poemas: Ultimatum (1966), Espelho Riscado (1978) e Cantares da Paixão (2008). Promoveu e organizou o Ano Jorge de Lima , em 1973, em comemoração aos 80 anos do nascimento do poeta, evento que contou com o apoio de Carlos Drummond de Andrade, Menotti del Pichia, Cassiano Ricardo, Raduan Nassar e outras figuras importantes da literatura do Brasil. Organizou e publicou Jorge, 80 Anos - uma espécie de iniciação à parte menos conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano. Integrou o movimento Catequese Poética, iniciado por Lindolf Bell em 1964, cujo lema era: o lugar do poeta é onde possa inquietar, o lugar do poema são todos os lugares. Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (2008) com poemas visuais no Museu Nacional e na Biblioteca Nacional. Fez também leituras no café Balaio, Rayuela Bistrô e Barca Brasília. E participou da Mini Feira do Livro, com o lançamento de Carta ao Homem do Sertão, livro-homenagem ao centenário de Guimarães Rosa. No seu blog, www.rubensjardim.com vem publicando, desde 2011, a série AS MULHERES POETAS...Participa frequentemente de recitais e saraus e foi incluído na coleção poesia viva, do Centro Cultural São Paulo, com a coletânea de poemas Fora da Estante( 2012).