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Ilustração: Michael Cheval |
O suicida ao homicida
Era uma vez...
o sonhador que colhe
berinjelas
na terra das flores murchas
onde vossa miséria é ourives do mundo
então, enquanto a rosa colora de roxo todo ouro impune
lá no alto, no píncaro dos pícaros, onde língua é afiada a facão
lê-se em violetas gigantescas:
ESQUECEU QUE PARA UM SONHO DE VERDADE
SE PERDE A VIDA INTEIRA?
e no instante em que dos olhos desaparece a cor desaparecida nos olhares
a orquídea rega a beleza com o sonho esquecido
é a alma procurando-se entre os destroços
entre a carne, entre os ossos
entre a obscura pálpebra do coração em que a bromélia vasculha os desejos
pois é no útero estéril da ignorância
que se ilumina a grande fertilidade dos tolos
junto da líquida papoula que voa
o seu maldito e delicioso disparo de enganos
assim o lírio oficial chora uma última assinatura
uma última mentira de envelope em seu envelope de mentiras
e ainda persiste este incômodo sinônimo de dor que é a vida
e prospera o transeunte girassol em seu magma púrpura
cortejando a lua num lamaçal de estrelas
Exórdio
Infelizmente tenho de respeitar o seu direito de ser um idiota
mas para minha felicidade as regras não são réguas da honra
É um beijo de morango
com sabor de anestesia
e efeito depressivo
E você com seu olhar bovino marchando com a manada
vai pastando o lixo heroico que te vendem pra engorda
Infelizmente é cada um com a sua hipocrisia
e concedo-me o direito de chafurdar na minha
Oração para desesperados
Puta que o pariu, deus! Tu tá cego, caralho? Desbunde esse rabo misericordioso dessa poltrona divina e livra a gente dessa merda, porra!
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Ilustração; Michael Cheval |
Elegia
Na dobra do vento
lenta a saudade
fogem os caminhos de instinto cinza escarlate
o abismo de histórias acorrenta
p
r
o
f
u
n
d
i
d
a
d
e
s
rios de memória choram para que o passado não volte
em
apenas
50%
OFF
Esperança:
deveria existir uma primavera para cada dúvida.
burocracia
como diria meu nono bellé, de tanto exigirem papéis, oficializaram as traças
Nascido no sudoeste do Paraná, Junior Bellé publicou em 2010, de maneira independente, “O sonhador que colhe berinjelas na terra das flores murchas”, com não mais que 300 cópias, as quais vendeu por aí, nas ruas e botecos, para amigos e inimigos. Seu segundo livro, “Trato de Levante” foi publicado pela Editora Patuá em 2014.