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2 poemas de Tess Gallagher por Miriam Adelman

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A ausência

Escrevo isto por vingança
que é uma mágoa que se profere ao eu
em nome de outro. Tem a ver com
criar um motivo   o que é
uma ausência não pouco parecida
com uma arma. Um homem atirou
num oceano atrás da minha casa.
Foi um ato de coragem. Os pássaros
se libertaram porque era minha
varanda com um oceano atrás.
Ele reconheceu um alvo que
apareceu, seus punhos soltos
à espreita. É essa a maneira
dos alvos, um tão bom quanto o outro
até você decidir. O oceano estava lá
assim como a arma que reconhecia o
oceano e o desejo do homem
 de se ausentar     o que é
uma forma de começar de novo. Eu
escrevo isto como vingança    e a palavra
porque nada tem a ver. O motivo
se esquece. O homem atirou.


 The Absence

I am writing this out of vengeance
which is a hurt given to the self
in the name of another. It has to do
with becoming a purpose
which is an absence not unlike
a gun. A man fired one
into an ocean in back of my house.
It was an act of bravery. The birds
went free because it was my
back porch and an ocean
behind it. He knew a target
when he saw one, those fists loose
in his eye. That is the way of targets,
one as good as another until
you decide. The ocean was there
and a recognition of the gun
for the ocean and the need too
of the man to leave himself out
which is a way of beginning
again. I am writing this
out of vengeance and the word
because has nothing to do
with it. The reason forgets
itself. The man has fired.



Seda preta

Ela estava limpando – isso sempre
nos resta – quando encontrou,
na parte de cima do armário, o velho
colete de seda que ele usava.  Ela me chamou
para vê-lo, desenrolando-o com cuidado
como se alguma coisa viva pudesse
cair dele.  Então o estendemos
sobre a mesa da cozinha alisando
as rugas, nossas mãos pesando até
ele voltar à sua forma sobre a formica
e as pequenas pontas que indicariam
os bolsos ficarem lisas.  Os botões estavam todos
intactos.  Estendi meus braços e ela
passou as grandes cavas da manga
por eles. “Isso é algo  que nunca tive desejo
de ser”, disse ela, “um homem”.
Eu fui para o banheiro para ver
como me veia nesse brilho, nessa
 tristeza. Sinos de vento desafinados
na alcova. E ela que  começou
 a chorar pelo que eu me afastei
contra a luz da pia onde a porcelana
tinha fixado seu olhar. É hora de acudir a ela
pensei eu, com essa outra parte da mente,
e fiquei imóvel.


Black Silk

She was cleaning – there is always
that to do – when she found,
at the top of the closet, his old
silk vest. She called me
to look at it, unrolling it carefully
like something live
 might fall out.  Then we spread it
on the kitchen table and smoothed
the wrinkles down, making our hands
heavy until its shape against  Formica
came back and the little tips
that would have pointed to his pockets
lay flat. The buttons were all there.
I held my arms out and she
looped the wide armholes over
them. “That’s one thing I never
wanted to be”, she said, “a man.”
I went into the bathroom to see
how I looked  in the sheen and
sadness.  Wind chimes
off- key in the alcove.  Then her
crying so I stood back in the sink-light
where the porcelain had been staring. Time
to go to her, I thought, with that
other mind, and stood still.



Tess Gallagher, do livro Instructions to the Double (Graywolf Press, 1976), com versão de Miriam Adelman.



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